segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Conto I


Sentiu, como uma forte onda, um amargo gosto na boca. Fazia tempo que não provava algo assim. Gosto de desprezo, de rejeição, de solidão. Olhou pela janela a visão urbana que lhe presenteava naquele começo de manhã, deu pra não conseguir dormir agora. Se controlou ao máximo para não sair atrás de algo que pudesse amenizar sua dor, qualquer droga, seja ela líquida ou sólida, era um pedido da alma pra tentar fazer o coração parar de bater.
Esqueceu, por vários dias, a louça suja que se acumulava em todos os móveis da casa. Banho também lhe faltava, assim como o amor-próprio. Não falava com mais ninguém que não fosse ela mesma, não comia nada mais que solidão. Os três dias que se passavam pareciam mais um intenso século cruel. Depois de tanto pensar concluiu que era melhor morrer do que sentir mais um minuto daquilo. Gosto amargo na boca. 
Quando era criança achava super legal um dia morrer com os pulsos abertos por uma gilete, em uma banheira cheia água, como se fosse um dolorido banho eterno. O problema é que hoje ela não tinha banheira, só um chuveiro velho, que tempos atrás testemunhava muitas vezes dois corpos nus, colado um ao outro, trocando prazer e juras de amor. Somente juras, e nada cumprido. Agora, pode-se ao menos compreender porque aquela pobre moça evitava o mínimo de higiene pessoal.
Mesmo assim, ela deu uma boa olhada pro chuveiro, tomou o ultimo banho, pegou um gilete sem nenhuma consciência real, e se deitou nua na cama. Depois de quase 72 horas ela se via com ânimo. Ânimo para morrer. Deitada, lhe passou a ideia de uma ultima gozada antes cumprimentar a Morte, afinal, um orgasmo nunca fez mal à ninguém.
Fechou os olhos e começou a se tocar, massagear o clitóris, apertar os próprios seios. Logo veio a imagem da boca dele, da barriga dele, do pênis dele e por fim o corpo dele por completo. Abriu os olhos com toda a força que teve, e tirou a mão da sua vagina brutalmente. Prometeu que não iria mais chorar. Mas a ideia do gozo ainda a perturbava. Mas como? A mente é perigosa, capaz de nos fazer rever coisas que jurávamos ter matado dentro de nós.
De repente, ouviu, como de costume, aquela irritante melodia vindo do andar debaixo. Novos Baianos. Do rádio do vizinho. Solteiro com pinta de chato. Foda-se. E, como fumaça, surgiu a ideia de foder com ele, talvez por uma hora até voltar para casa e  dizer adeus. Feio ele não era, só meio esquisito com seu sotaque de gaúcho e suas músicas velhas. Pensou em descer, pelada mesmo, de elevador, tocar a campainha e não dizer nada, só rebolar. Mas ainda era tímida, pra vida, pra morte e pro tesão.
Tentou, então, a ideia de foder com ela mesmo, pensando nele com suas músicas chatas e seu olhar misterioso. Fechou os olhos mais uma vez, e começou a se tocar. De principio alguns traços daquele já familiar. Fechou ainda mais os olhos, se tocou ainda mais forte. Imaginou ele por trás dela, em qualquer lugar de qualquer horário. Gozou melando as pernas, e, pela primeira vez durante semanas de sofrimento antecipado, sorriu. 
Fechou os olhos e dormiu, acordando sabe-se lá que horas. Tomou outro banho, arrumou a casa, comeu feito uma rainha e deu uma volta pelo bairro. Foi então que se lembrou da morte que havia marcado consigo mesma, e sorriu de novo. Ligou pra uma velha amiga que a convidou para passar o fim de semana na casa dela. E ela aceitou. 
Voltou domingo à noite, implorando mentalmente por uma boa noite de sono, estava realmente se sentindo bem. Fechou os olhos e quando  o sono estava batendo em sua porta, ouviu uma melodia. Novos Baianos. Vizinho Maldito.
Desceu, tocou a campainha duas vezes até a porta se abrir. Com um olhar desconfiado ele disse "Olá." Moreno alto, sorriso largo, olhos cor mel. "Tudo bem, já vou abaixar o volume." "Não... tudo bem... eu... só.." Ficaram se encarando por infinitos três minutos. "Quer entrar?" E ela entrou. Enquanto ele foi abaixar o volume do rádio ela respirou fundo e nem deu chance de pensar. Encostou seu quadril ao dele e sussurrou "Sabia que você me salvou?" "Do quê?" "Da morte." "Como???" "Assim.." E então ela tirou o vestido, e se viu nua ali, na sala dele. E o gaúcho, sem entender  porra nenhuma e de pau duro, a beijou. Sem nenhuma troca de palavras se foderam a noite inteira, pra depois dormirem um abraçado ao outro.
Amanheceu, e algo a fez despertar. Novos Baianos. Abriu os olhos e deu de cara com o gaúcho lhe oferecendo uma xícara de café. "Quer que eu desligue o som?" "Não." Sorriu para si mesma, e aceitou o pedido de desculpas do destino. Estava, finalmente, em paz.

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